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5 de Abril de 2020

20 de Novembro, Dia da Consciência Negra

Notas sobre o racismo

Wanessa Costa, Advogado
Publicado por Wanessa Costa
há 5 meses

Instituído oficialmente pela lei nº 12.529/11, o dia 20 de novembro, é celebrado no Brasil o Dia Nacional da Consciência Negra, remete ao dia em que foi morto o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, em 1695, considerado símbolo da luta e resistência dos escravos negros no Brasil durante o período de mais de 300 anos em que aqui vigorou o sistema escravocrata.

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Esta data é de celebração e de conscientização sobre a força, a resistência e o sofrimento que a população negra viveu no Brasil desde a escravatura. Durante o período colonial, aproximadamente 4,6 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil para servirem na condição de escravos, trabalhando primeiramente em lavouras de cana-de-açúcar e serviço doméstico e, posteriormente, na mineração e em outras lavouras.

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As condições de vida dos escravizados nascidos no Brasil era extremamente precária, viviam com “objetos/animais domésticos”. Submetidos ao trabalho forçado, os escravos recebiam tratamento degradante e humilhante, não tendo direito nem mesmo à LIBERDADE, quiçá tratamento médico, educação ou qualquer tipo de assistência social.

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O brilhante filme “Green Book” (o título faz referência a um livreto que listava os hotéis do sul dos EUA que aceitavam pretos), de Peter Farelly, relata sobre um outro momento da História, gerando discussões sobre racismo e desigualdade, de forma dispare dos filmes do gênero, já que desta vez um negro contrata um branco (racista) para trabalhar como seu motorista e assessor, segundo a crítica o filme se passa “Em um período em que os Estados Unidos veem marchas de confederados, o longa tem a coragem de expor o quão insano era o preconceito racial em determinada parte do país antigamente (e nem tão antigamente assim, infelizmente)”.

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Eu diria que o racismo é aquela ideia (porque nem sempre falamos) que estereotipa alguém, fazendo com que essa pessoa seja diminuída por determinada característica ou, na pior das hipóteses, que a torne invisível ou “inútil”, por exemplo: se você pensa que preto é “sinônimo” de ser criminoso, pobre, morar em periferia, ocupar cargos com pouca/nenhum qualificação, estudar em escolar públicas, isso é um estereótipo.

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Atualmente, ainda que o negro tenha conquistado grande espaço, o racismo é algo que ainda existe, e não raro os noticiários mostram agressões física e/ou verbal. Ainda que boa parte da população se diga “não racista” as atitudes, pensamentos e comportamentos por vezes deixam transparecer aquilo que está no subconsciente.

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Exemplos: quando você vê seu amigo/parente se relacionando com um negro, se espanta e fala (ou pensa) “não sabia que fulano gostava da cor..”, quando você vê um negro numa escola particular ou com em alto cargo de empresas e se espanta, pelo simples fato da pessoa ser preta.

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Recentemente virou notícia um empresário que estava acompanhado de sua filha de 15 anos estava no banco, e, cansado da espera, resolveu tentar solucionar o problema com o gerente geral. Ele afirma que o funcionário o tratou de forma ríspida ao ser questionado sobre o tempo de espera e o atendimento prestado. "Ele então acabou chamando a polícia depois que eu me recusei a sair da mesa dele. Após uma hora, os policiais chegaram no local e, à princípio, não fui maltratado. Eles quiseram me conduzir à delegacia junto com o gerente geral, mas ele afirmou que só iria se 'esse tipo de gente' saísse algemada. Só quem sofre o racismo, sente a dor".

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Depois de se recusar a ser algemado, o empresário acabou recebendo um "mata-leão" - golpe de estrangulamento - de um dos PMs. "Também acredito que sofri racismo por parte do policial, porque sequer esbocei uma reação, estava tranquilo” concluiu.

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“Será que já paramos para pensar sobre todo o contexto que essa data representa? Não, claro que não. Acho que nunca iremos esgotar a problematização e alegria trazidas através de muitas dores e principalmente resistências. Para hoje eu chegar aqui tiveram muitos negros sofrendo mais do que o triplo do que eu sofro em seus mais diversos contextos, olha que hoje eu, a preta dita" padrãozinho ", sofro ainda muito pelos resquícios cruéis de anos de escravidão. Parem de fazer piadas com as nossas dores, não desprezem nossas falas e lutas, chamando de ‘mimimi’ ou vitimização.”, palavras da advogada Mayana Fernandes, 28 anos , bel. Interdisciplinar em humanidades, pós-graduanda em Ciências Criminais, ao meu convite.

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Mayana revela que “a mulher negra é vista como quente, o homem negro tem que ser bom de cama e ter o órgão genitor grande, somos vistos como reprodutores, quando somos muito mais que isso. O homem branco fica com mulher negra, mas ele não assume, principalmente se tiver um poder aquisitivo bom, o ‘branqueamento’ virou sinônimo de poder”.

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Ela conta uma experiência pessoal da faculdade, quando uma professora branca a questionou se iria tirar suas tranças agora que estava cursando Direito, como se a profissão não “comportasse” a sua identidade negra, suas origens. Continua com a vivência de sua profissão e narra situações implícitas de racismo: “até hoje eu sou questionada se sou parte quando vou acompanhar meu cliente na delegacia, principalmente quando meu cliente é branco. Outro dia, estava fazendo uma audiência sentada no lugar (que é específico para advogados) acompanhada de três mulheres negras, que eram minhas clientes, e um outro advogado perguntou ‘cadê a advogada de vocês’?”.

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Por fim, a advogada diz que “O ter que se autoafirmar dói muito. O dia da consciência negra tem que existir. Eu ‘piro’ quando tem preto que coloca que hoje é dia da consciência humana! Apesar de sermos humanos, existe uma divisão muito grande entre brancos e pretos, e esse dia é para continuarmos ganhando nosso espaço, dias de luta.”.

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Nas palavras de Nelson Mandela,"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar."

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Participação:

- À convite, @mayannafernandes, Mayana Fernandes, advogada, bel. Interdisciplinar em humanidades, pós-graduanda em Ciências Criminais.

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Referências Bibliográficas:

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<http://www.adorocinema.com/filmes/filme-256661/criticas-adorocinema/>; (Acesso em 19/11/2019)

<https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-nacional-consciencia-negra.htm>; (Acesso em 17/11/2019)

<https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/20-novembro-dia-consciencia-negra.htm>; (Acesso em 17/11/2019)

<https://revistaforum.com.br/brasil/ao-lado-da-filha-de-15-anos-empresario-negroeretirado-com-mata-...; (Acesso em 17/11/2019)

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(Wanessa Costa, 20/11/2019)

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